Por aqui é tudo meio caipira com vagas tentativas de status capitalescos de existência. Por aqui tem uma coisa de cada, sempre. Ou na minha ideia de sempre que não se restringe ao sempre do meu umbigo no mundo, mas de alguma forma não chega a conhecer todo o sempre. Aqui tem um só prédio, tão solitário quanto pouco imponente, mas fica bem em frente a praça Ataliba Leonel. Diria típico não fosse clichê. Tem um bar de jovem, outro de meia idade, uma rua principal, e um Cristo nada redentor que deve morrer todos os dias de angústia de não ter o azul do Rio sob os olhos. Andando pela única estrada, coisa de dois quilômetros tem o único motel.
Isso era o que eu sabia até tempos atrás (o bom de brincar com o tempo é que o tempo inteiro ele se torna outros tempos, tempos atrás, tempos de mais). Era num desses dias em que me perco por aqui. O lugar foi sugerido por alguém que acendia o cigarro. Tem estrelas, foi dizendo, tem muita estrela, não ninguém vê, é escuro, mas é claro porque tem estrela. Nessas bandas de cá é preciso saber exatamente onde se pisa para não ser visto, ainda que com uma cerveja na mão olhando as estrelas. Nos olhos daqui, olhar para cima é desatino, discrepância que beira a loucura.
O céu tinha mesmo mais estrelas que qualquer outro céu de estrelas. São tantas que se confundem, se brilham. Sebrilham deveria ser o substantivo para esse tipo de ocasião em que as estrelas são tantas que o brilho de uma brilha com a outra, se brilham. Além do céu dá para enxergar de canto o cristo pouco imponente, as árvores que cercam o começo da estrada e algumas luzes que são poucas perto das estrelas. Ainda existe cidade assim em que as luzes não superam a quantidade de estrelas no céu?
Ali era um tipo de motel natural, mais perto que o motel há dois quilômetros, não paga nada e ganha o céu. Nas noites tediosas de calor é também algo como um quintal coletivo para algumas conversas, cerveja e distância. É assim: pequenas árvores postadas numa distância uma das outras formando uma faixa de estacionamentos na grama ao lado do asfalto. Os carros que param já chegam de vidros fechados, é preciso não ser visto por aqui.
Talvez se os carros abaixassem o vidro para ver o céu com freqüência ali seria um observatório, não motel.De qualquer forma e diante de tal observação deixo os vidros abertos. Da primeira vez até arrisquei: desci do carro, acendi um cigarro, e vi o céu. Vi com toda a intensidade que se pode alcançar ao ver um céu desses. Vi, vi, vi e não venci, era impossível olhar para todas as estrelas.
A foto é do coqueiro quase tocando o céu rosa que tem por aqui e foi tirada por mim

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