A solidão machuca porque é calada, esguia, ressentida. Solidão só
silencia o sol, apaga as gotas da chuva, desloca nuvens, mas o dia passa, o dia vai
aos trancos e desencantos
desfazendo
nós em cima
de nós
Solidão só é um soco no estômago
falta ar,
terra é pouca,
penso como um homem do século XXI,
sinto feito uma dama do XVIII,
que diabos fizeram com o tempo
em mim?
Andam meus pensamentos por caminhos
que meu coração nunca pisará
sábado, 30 de julho de 2011
Me divirto falando sobre Caetano Veloso por aí, entre violeiros, bluseiros, e moleques da velha juventude que ainda defendem riffs clássicos, vocalizações experimentais, mas são tão ressentidos com Caetano feito viúva que descobre-se traída. Escutam atentos, até ensaiam uma possível concordância, mas sempre se resignam à traição do velho garotão dos caracóis nos cabelos.
Em geral começo falando de Maria Bethânia, que consegue despertar nos sabichões da world music um sorriso espontâneo; tento passar de forma imperceptível puxando Caetano na conversa e suas inovações musicais no cenário brasileiro. E aí o circo pega fogo dentro de mim. Os olhos carregando barbas mal feitas me condenam, não esbravejam Judas! Judas! Estão todos metidos na filosofia, na existência, literatura e pouco tempo lhes sobram para julgamentos banais, mas me condenam com aqueles olhos de meninos homens da sabedoria na bandeira.
Digo da experimentação em música brasileira, dos ritmos, vocalização, timbre, arrisco a poesia, apelo para a política. O intelectual, o intelectual! Pareço clamar diante de duros xerifes de alguma tribo simbolicamente organizada. Nem um pio, não concordam. Desconfio que não tenham ouvido o Transa de 1972, ou Circuladô de 92, mas na filosofia a desconfiança vale mais que certeza e meia.
Chego nos Doces Bárbaros e os duros xerifes desabam nostálgicos eternamente magoados por Caetano que magoou Tom Zé que não bate bem na cabeça e não magoou ninguém, ao menos não diretamente. Juntam-se em nome do velho gênio maluco como fiéis seguidores que pela moral bravia dos relacionamento entre músicos rejeitam a própria música. E aí que tenho a quase certeza que, de fato, não ouvem Caetano. E não o ouvem porque não aceitam a traição, apesar de estarem metidos na filosofia, na história, literatura, política e música.
Não troco Estudando Samba (1995) nem Todos os Olhos (1973) de Tom Zé por Caetano, tenho manhãs e noites de sobra aos dois. Caso a moral dos rapazes me permita, eis Caetano de 70.