- o mundo deve dar uma risadinha de canto toda vez
- o que acha de religião e política?
- O mesmo que acho sobre dinamite e fogo
-Devem ser mantidos a uma distância segura do outro
- to escrevendo algo sobre pra um site
- Aiyah
- Sobre quando os dois se misturam?
- sobre os dois
- semelhantemente
- Hmmm
- Mais fácil ver gente se alienando de política do que de religião
- por isso entrevistei padres alienados politicamente
sábado, 24 de abril de 2010
- Qual seu nome?
Respondi quase soletrando, mas ele pareceu não se importar.
- E o seu?
Ele pensou um pouco, deu um sorriso sacana como se pouco importasse, nomes são nomes e, numa lógica de mundo real, nunca mais nos encontraríamos longe dali.
- Piolho.
Eu subia uma pequena ladeira quando o avistei de longe, sentado em frente a uma dessas lojas que vendem futilidades indispensáveis a essa gente de hoje. Tinha olhos fortes, sem cor definida, olhos expressivos encarando diretamente os meus. Foi minha primeira troca de olhares.
Os olhos se encontraram simultaneamente, não sei. Essas coisas deveriam ser filmadas pra gente ter certeza se foi mesmo um clichê. Gostei logo dos cabelos bagunçados de vida, estrada, gente, dread, como dizem, mas esses pareciam vir de longe, além de salões especializados em fazer parecer.
Não desviamos o olhar nem mesmo na proximidade que tomávamos, não houve medo em conhecer um os olhos do outro.
Ele não deve ter pensado assim. Tinha outras coisas.
- Onde você nasceu?
Dei dois tragos e olhei para baixo para descansar os olhos.
Ele parou como um pensador, não por pose ou mistério, mas por ser um, de fato.
- Manaus. Com aquele sotaque de todos os cantos, de todas as esquinas, praças, vidas, aquele sotaque de brasil raro de ouvir.
- Tá por aí sempre?
Confirmou com a cabeça balançando os cabelos e o corpo como se dançasse.
- Você é mineira?
- Sou do interior de são paulo, uma parte italiana outra baiana.
Riu suave descobrindo um outro a mais.
- Você já foi pra bahia?
- Porto Seguro.
- Um lugar bom.
- E manaus?
- Uma coisa doida, lôca mermo.
O sotaque partiu de outro canto.
- É uma mata muito doida, e a cidade mais tecnológica do brasil. É doido.
Esperei.
- Um dia lá, numa cidade, assim, bera de rio eu cheguei, comprei uma cerveja e fui andando pra uma parada de ônibus que eu vi. Um homem assim meio velho tava lá, sentado. Perguntei se passava ônibus agora ele disse, bem não sei não, masuma hora passa.Daquele jeito tranqüilo de homem de lá, ele era meio doido: eu moro ali pra cima 17 km lá na minha terra, mas tem um bando de besta, esses japonês americano colocando um monte de coisa lá que eu não entendo nada. Tolos,, mas na minha terra eu planto, eu colho, eu tenho mandioca, açaí, vou deixar minha terra aí, mas é nela que criei meus três filhos e sou feliz.
Fala manso, cantado, gostoso de ouvir. Ri da minha imbecialidade. Acendemos mais um cigarro.
Percebi depois de um tempo, quando olhava as cinzas caindo, que vestia calças e jaquetas de militar, essas cor de mata e terra. Disse a ele que havia alguma graça naquilo, ele riu contando: entrei num boteco um dia em são paulo e um cara me disse que eu parecia argentino, eu disse, meu filho, isso é calça do exército brasileiro e essa é jaqueta da aeronáutica brasileira.
Balançou os cabelos para acalmar o pensador, voltou a sorrir, achar graça.
- Você faz o quê?
- jornalismo.
Os olhos pensadores despertaram num riso quase desconfiado.
Saltou à minha frente balançando-se todo, dançando mais.
- Então me entrevista!
Eu ri baixo, vergonha de alguma coisa que eu não tinha feito, dei mais um trago quem sabe.
- Eu já te entrevistei...tudo o que você falou eu guardei.
Deu dois tragos longos, dei uns passos de lado desencostando da parede, olhamos para lugares dispostos, o céu não dava pra ver ao certo.
- Preciso mijar.
Piolho tinha um tanto a menos da minha altura, ombros mais curvados, solas mais gastas.
- Onde eu faço?
- Árvore, né?
Rimos.
Quase próximos ele me chamou com a mão balançando. Cheguei mais perto cruzando entre meninos e meninas com tanta disposição, quase me cansei. Ele estendeu a mão pra mim, ainda sentado ao chão.
- Dá uma olhada aí nos meus trampos.
Eu já tinha dado uma olhada de longe.
- Sem grana, mas vai rolar Velhas Virgens, aqui.
- Velhar Virgens? Caramba. Foi se levantando. Quanto que ta?
- Quinze.
- Vou entrar na democracia.
- Quero sair um pouco daqui, descobrir outras coisas...a madrugada já se estendia além de sua escuridão.
- Tô indo pra argentina, vamos, faz sua mochila e vamos.
- ...ainda to pensando, meu tempo...a gente se encontra por aí.
Desliga a novela, senhora. Não, a mocinha não se casa hoje, talvez um passeio pelo Leblon de mãos dadas, mas nada de casamento. Esqueça. Desliga a novela, senhora. Eu tenho uma história para contar.
Não é propaganda, minha senhora, veja bem, é só uma história. Parecida com a novela, sim, parecida porque é história, mas é rápido, não leva nem dois capítulos. Escute.
Tem dois meninos lá fora pedindo algum trocado. Não se assuste, senhora, são apenas dois meninos. A polícia não é necessária, tenha calma.
Estão descalços, com roupas surradas, um tanto sujos. Não sei se usam drogas, senhora, talvez fumem um aqui, outro ali, eles estão na rua, senhora. São apenas dois garotos.
A fome eles nem sentem mais, não conhecem outro cheiro senão o das ruas. A senhora já pensou em sentir cheiro de rua num sono tranqüilo?
Eles estão aos frangalhos dos olhos aos pés, as mãos tremem de medo, de frio, ninguém sabe. Ninguém quer saber.
Nenhum deles almoça, toma leite com chocolate ao acordar, escova os dentes antes de dormir. Veja, tem mais dois deles vindo do outro lado. E mais três descendo a esquina, e quatro correndo da polícia, e dez morrendo noutra vila.
Não se assuste, estou contando uma história, senhora. Tem só mais um bloco, sem intervalo comercial, garanto.
Os pais deles estão caídos por aí, sem teto, sem grana, sem feto, sem afeto. Filho de peixinho, você pensa baixinho pra eu não ouvir, mas eu ouço, senhora. Não precisa esconder, posso ver nos seus olhos.
Você quer saber o final da história, senhora? Não terá casamento, nem amores trocados, nem jantares de família, nem foguetes, nem happy ends.
Esses meninos estão todos numa história só, num trecho só, num mundo só.
Você, minha senhora, você e a sua vizinha, e a comadre da sua igreja, e as suas netas, suas filhas, seus maridos, seus genros, seus sobrinhos e inimigos estão todos querendo ter uma vida de novela.
Não mude de canal, você precisa ouvir.
Vocês estão todos buscando encher de grana o apartamento vazio de vocês. Vocês estão deixando os próprios corações e os desses meninos vazios.
Agora vá lá, não perca a última chance de ter uma vida de novela e deixe esses meninos e meninas e senhores e senhoras e mães e pais e crianças e avós todos perdendo a vida entre a fome, a decepção, o desespero, a angústia e a miséria.