terça-feira, 6 de setembro de 2011

Tempos de soslaios

Olhos de soslaio. Aquilo me soou como a nona sinfonia de uma música clássica naqueles tempos de colégio em que o meio dia era tão esperado quanto a meia noite da juventude. Liberdade ainda que à tardinha, mas aqueles olhos de soslaio me pegaram em cheio. Eram tempos difíceis de transição de século, a democracia nunca esteve tão em alta, no entanto meus olhos (seriam eles de soslaio?) enxergavam a censura por todos os cantos.
Eu começara a ouvir dizer sobre a política da esquerda numa ou noutra aula de história, geografia, algo aqui ou ali bem escondido nas dezenas de canais de televisão. Tudo parecia pertencer a mundo que eu mal ouvira falar, enquanto o discurso de Paulo Maluff era tão conhecido quanto o populismo de Vargas. Onde é que estava este outro lado do mundo? A censura simbólica nas cidades dos interiores do país podem ser tão manipuladora quanto instigante, eu não sabia exatamente o que existia além daqueles pastos com sol a pino e cerveja gelada na esquina, mas eu queria existir.
Queria tanto existir que vi nos olhos de soslaio a liberdade da linguagem, um detalhe àquele tempo era o suficiente para deixar o pensamento perdido pelo resto da tarde entrando nos sonhos ao final da noite. A brincadeira do poeta fez dos olhos que apenas enxergam um estado de consciência, uma permanência consciente de uma ação meramente biológica: os olhos de soslaio! Talvez os olhos estivessem contemplando a reflexão de uma saudade, ou talvez fosse uma descrição detalhada do autor. A memória guarda pequenos momentos para a gente inventar o cenário que quiser.
As expressões não seriam expressões se não fossem marcantes, mas talvez eu tenha sido a única que parou por um instante para guardar aqueles olhos de soslaio num canto desavisado da memória. Era a primeira vez entre eu e eles, os olhos, saídos da boca da professora de estatura baixa, cabelos na altura dos ombros de um negro literário bem como os olhos e o jeito de andar como quem recita poesia entre um passo e outro. Vinha dela essa paixão silenciosa pelas palavras. Eu sentava sempre por perto atenta aos movimentos daquele que dizia ser o detentor do conhecimento, qualquer pista falsa eu desconstruía o sacana e desistia da tarefa de observação. Ela não era sacana e eu perdia todo meu tempo reparando no som das palavras que dizia, e nas poesias que contava: bucolismo, simbolismo, modernismo, era tanta história e eu queria saber mais. E o Shakespeare? Perguntei num intervalo sem ninguém por perto e ela me disse como quem pede desculpas, mas tem que correr pra tomar um cafezinho que Shakespeare estava em outros tempos.
O que não me faltava era paciência para descobrir os outros tempos. Eu colocaria meus olhos no estado de soslaio e aguardaria a descoberta desses tantos outros tempos que existem há tanto tempo. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário