quinta-feira, 29 de dezembro de 2011



Por aqui é tudo meio caipira com vagas tentativas de status capitalescos de existência. Por aqui tem uma coisa de cada, sempre. Ou na minha ideia de sempre que não se restringe ao sempre do meu umbigo no mundo, mas de alguma forma não chega a conhecer todo o sempre. Aqui tem um só prédio, tão solitário quanto pouco imponente, mas fica bem em frente a praça Ataliba Leonel. Diria típico não fosse clichê. Tem um bar de jovem, outro de meia idade, uma rua principal, e um Cristo nada redentor que deve morrer todos os dias de angústia de não ter o azul do Rio sob os olhos. Andando pela única estrada, coisa de dois quilômetros tem o único motel.
Isso era o que eu sabia até tempos atrás (o bom de brincar com o tempo é que o tempo inteiro ele se torna outros tempos, tempos atrás, tempos de mais). Era num desses dias em que me perco por aqui. O lugar foi sugerido por alguém que acendia o cigarro. Tem estrelas, foi dizendo, tem muita estrela, não ninguém vê, é escuro, mas é claro porque tem estrela. Nessas bandas de cá é preciso saber exatamente onde se pisa para não ser visto, ainda que com uma cerveja na mão olhando as estrelas. Nos olhos daqui, olhar para cima é desatino, discrepância que beira a loucura.
O céu tinha mesmo mais estrelas que qualquer outro céu de estrelas. São tantas que se confundem, se brilham. Sebrilham deveria ser o substantivo para esse tipo de ocasião em que as estrelas são tantas que o brilho de uma brilha com a outra, se brilham. Além do céu dá para enxergar de canto o cristo pouco imponente, as árvores que cercam o começo da estrada e algumas luzes que são poucas perto das estrelas. Ainda existe cidade assim em que as luzes não superam a quantidade de estrelas no céu?
Ali era um tipo de motel natural, mais perto que o motel há dois quilômetros, não paga nada e ganha o céu. Nas noites tediosas de calor é também algo como um quintal coletivo para algumas conversas, cerveja e distância. É assim: pequenas árvores postadas numa distância uma das outras formando uma faixa de estacionamentos na grama ao lado do asfalto. Os carros que param já chegam de vidros fechados, é preciso não ser visto por aqui.
Talvez se os carros abaixassem o vidro para ver o céu com freqüência ali seria um observatório, não motel.De qualquer forma e diante de tal observação deixo os vidros abertos.  Da primeira vez até arrisquei: desci do carro, acendi um cigarro, e vi o céu. Vi com toda a intensidade que se pode alcançar ao ver um céu desses. Vi, vi, vi e não venci, era impossível olhar para todas as estrelas. 


A foto é do coqueiro quase tocando o céu rosa que tem por aqui e foi tirada por mim

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Sempre
tudo
bem
bem
será possível
doer só
em mim?

A razão pura do coração consome. Não é nenhuma trama de Shakespeare, é vida barata acontecendo aqui e ali o tempo inteiro em diferentes formas, com ou sem estruturas, tudo vai parecendo com amor, paixão a quem busca sonhos em estrelas na madrugada. Pura bobagem, pura bobagem, essa história de vida é pura bobagem desacreditada e eu acredito feito velha resignada em religião, eu acredito.
Vida boa e barata porque agora deu numas de acharem que sou grosseira, no sentido de falar com toda a petulância que me cabe sobre as coisas que penso. Fui criada entre homens meio rudes meio saudosos que pouco diziam, se para escrever martelo os dedos em facas imaginem só falar na efemeridade do pensamento.
Gosto da vida barata, aquela que não marca compromissos porque pode ser que atrase, não chega no horário para coisas que não foram feitas para chegar no horário, ao menos no Brasil e não há quem desminta. A vida que vai e volta feito viagem de trem vagarosa com vento e chuva batendo os minutos, vai e volta de ônibus um tanto sonolenta, voa pelos ares atrás de outros espaços, a vida que vai e volta e vai às vezes não volta.
Conflito dessa vida é que apaixona de leve como lençol fresco em dia de calor, não há quem tire e não sinta o vazio por inteiro. Não é Shakespeare, é a vida acontecendo por vias de sentidos opostos, dispostos, expostos. Vai sentindo, sentido a lugar desconhecido, vai, indo, indo...Não vê e já foi.
Na descida do trem, pés em terras firmes, o gosto da vida, barata ou clássica, mas sentida. A via vai e volta, mãos na sacola, malas e pesos de papel e caneta. A escrita vai e volta, a vida não é Shakespeare, vai e nem se sabe o que é que fica.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dança de roda

A poesia
repetida
repetida
poesia
parece
brincadeira
de rima
vadia
Mas a poesia
repetida
repetida
poesia
poesia
é batucada
ecos dos tempos
ventos
da madrugada

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Tempos de soslaios

Olhos de soslaio. Aquilo me soou como a nona sinfonia de uma música clássica naqueles tempos de colégio em que o meio dia era tão esperado quanto a meia noite da juventude. Liberdade ainda que à tardinha, mas aqueles olhos de soslaio me pegaram em cheio. Eram tempos difíceis de transição de século, a democracia nunca esteve tão em alta, no entanto meus olhos (seriam eles de soslaio?) enxergavam a censura por todos os cantos.
Eu começara a ouvir dizer sobre a política da esquerda numa ou noutra aula de história, geografia, algo aqui ou ali bem escondido nas dezenas de canais de televisão. Tudo parecia pertencer a mundo que eu mal ouvira falar, enquanto o discurso de Paulo Maluff era tão conhecido quanto o populismo de Vargas. Onde é que estava este outro lado do mundo? A censura simbólica nas cidades dos interiores do país podem ser tão manipuladora quanto instigante, eu não sabia exatamente o que existia além daqueles pastos com sol a pino e cerveja gelada na esquina, mas eu queria existir.
Queria tanto existir que vi nos olhos de soslaio a liberdade da linguagem, um detalhe àquele tempo era o suficiente para deixar o pensamento perdido pelo resto da tarde entrando nos sonhos ao final da noite. A brincadeira do poeta fez dos olhos que apenas enxergam um estado de consciência, uma permanência consciente de uma ação meramente biológica: os olhos de soslaio! Talvez os olhos estivessem contemplando a reflexão de uma saudade, ou talvez fosse uma descrição detalhada do autor. A memória guarda pequenos momentos para a gente inventar o cenário que quiser.
As expressões não seriam expressões se não fossem marcantes, mas talvez eu tenha sido a única que parou por um instante para guardar aqueles olhos de soslaio num canto desavisado da memória. Era a primeira vez entre eu e eles, os olhos, saídos da boca da professora de estatura baixa, cabelos na altura dos ombros de um negro literário bem como os olhos e o jeito de andar como quem recita poesia entre um passo e outro. Vinha dela essa paixão silenciosa pelas palavras. Eu sentava sempre por perto atenta aos movimentos daquele que dizia ser o detentor do conhecimento, qualquer pista falsa eu desconstruía o sacana e desistia da tarefa de observação. Ela não era sacana e eu perdia todo meu tempo reparando no som das palavras que dizia, e nas poesias que contava: bucolismo, simbolismo, modernismo, era tanta história e eu queria saber mais. E o Shakespeare? Perguntei num intervalo sem ninguém por perto e ela me disse como quem pede desculpas, mas tem que correr pra tomar um cafezinho que Shakespeare estava em outros tempos.
O que não me faltava era paciência para descobrir os outros tempos. Eu colocaria meus olhos no estado de soslaio e aguardaria a descoberta desses tantos outros tempos que existem há tanto tempo. 

sábado, 13 de agosto de 2011

Deus fez a mulher,
feito sentinela
o pobre do Diabo
no dia seguinte
fodeu com ela.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Monótonos monólogos desses marasmos

O que ouço são silêncios dessas vozes que nem são minhas
São os passos grotescos dessa gente que olha, mas finge que não vê.
O que eu procuro não são mais minhas expectativas ilusórias de outrora; 

aquilo que me mantém não é mais o psicológico machadiano daqueles livros que nem li.
A teoria dos meus dias é o seu próprio paradoxo.Não suporto mais esse vai e vem de verdades, essas mentiras caladas na boca e gritantes nos olhos.
Diga-me o que lhe parece ser certo que farei o contrário! Diga-me seus medos de hoje, que lhe contarei os de amanhã! Diga-me somente o necessário, para evitar sua própria contradição!
Ah, essa gente que me atormenta...deixarão ao menos uma vez que eu seja minha própria sombra? Deixarão vocês, ao menos por um instante, que eu use minhas palavras sem receio?
Ah, essa gente e suas certezas...poderia eu continuar com minhas pequenas e vitais dúvidas?
Eu, que por muito tempo acreditei na compreensão, no sentido mais cético das infâmias!



escrito em 1 de setembro de 2007

quarta-feira, 10 de agosto de 2011