sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dança de roda

A poesia
repetida
repetida
poesia
parece
brincadeira
de rima
vadia
Mas a poesia
repetida
repetida
poesia
poesia
é batucada
ecos dos tempos
ventos
da madrugada

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Tempos de soslaios

Olhos de soslaio. Aquilo me soou como a nona sinfonia de uma música clássica naqueles tempos de colégio em que o meio dia era tão esperado quanto a meia noite da juventude. Liberdade ainda que à tardinha, mas aqueles olhos de soslaio me pegaram em cheio. Eram tempos difíceis de transição de século, a democracia nunca esteve tão em alta, no entanto meus olhos (seriam eles de soslaio?) enxergavam a censura por todos os cantos.
Eu começara a ouvir dizer sobre a política da esquerda numa ou noutra aula de história, geografia, algo aqui ou ali bem escondido nas dezenas de canais de televisão. Tudo parecia pertencer a mundo que eu mal ouvira falar, enquanto o discurso de Paulo Maluff era tão conhecido quanto o populismo de Vargas. Onde é que estava este outro lado do mundo? A censura simbólica nas cidades dos interiores do país podem ser tão manipuladora quanto instigante, eu não sabia exatamente o que existia além daqueles pastos com sol a pino e cerveja gelada na esquina, mas eu queria existir.
Queria tanto existir que vi nos olhos de soslaio a liberdade da linguagem, um detalhe àquele tempo era o suficiente para deixar o pensamento perdido pelo resto da tarde entrando nos sonhos ao final da noite. A brincadeira do poeta fez dos olhos que apenas enxergam um estado de consciência, uma permanência consciente de uma ação meramente biológica: os olhos de soslaio! Talvez os olhos estivessem contemplando a reflexão de uma saudade, ou talvez fosse uma descrição detalhada do autor. A memória guarda pequenos momentos para a gente inventar o cenário que quiser.
As expressões não seriam expressões se não fossem marcantes, mas talvez eu tenha sido a única que parou por um instante para guardar aqueles olhos de soslaio num canto desavisado da memória. Era a primeira vez entre eu e eles, os olhos, saídos da boca da professora de estatura baixa, cabelos na altura dos ombros de um negro literário bem como os olhos e o jeito de andar como quem recita poesia entre um passo e outro. Vinha dela essa paixão silenciosa pelas palavras. Eu sentava sempre por perto atenta aos movimentos daquele que dizia ser o detentor do conhecimento, qualquer pista falsa eu desconstruía o sacana e desistia da tarefa de observação. Ela não era sacana e eu perdia todo meu tempo reparando no som das palavras que dizia, e nas poesias que contava: bucolismo, simbolismo, modernismo, era tanta história e eu queria saber mais. E o Shakespeare? Perguntei num intervalo sem ninguém por perto e ela me disse como quem pede desculpas, mas tem que correr pra tomar um cafezinho que Shakespeare estava em outros tempos.
O que não me faltava era paciência para descobrir os outros tempos. Eu colocaria meus olhos no estado de soslaio e aguardaria a descoberta desses tantos outros tempos que existem há tanto tempo. 

sábado, 13 de agosto de 2011

Deus fez a mulher,
feito sentinela
o pobre do Diabo
no dia seguinte
fodeu com ela.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Monótonos monólogos desses marasmos

O que ouço são silêncios dessas vozes que nem são minhas
São os passos grotescos dessa gente que olha, mas finge que não vê.
O que eu procuro não são mais minhas expectativas ilusórias de outrora; 

aquilo que me mantém não é mais o psicológico machadiano daqueles livros que nem li.
A teoria dos meus dias é o seu próprio paradoxo.Não suporto mais esse vai e vem de verdades, essas mentiras caladas na boca e gritantes nos olhos.
Diga-me o que lhe parece ser certo que farei o contrário! Diga-me seus medos de hoje, que lhe contarei os de amanhã! Diga-me somente o necessário, para evitar sua própria contradição!
Ah, essa gente que me atormenta...deixarão ao menos uma vez que eu seja minha própria sombra? Deixarão vocês, ao menos por um instante, que eu use minhas palavras sem receio?
Ah, essa gente e suas certezas...poderia eu continuar com minhas pequenas e vitais dúvidas?
Eu, que por muito tempo acreditei na compreensão, no sentido mais cético das infâmias!



escrito em 1 de setembro de 2007

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

domingo, 7 de agosto de 2011

Os maluco costumam têm orverdose de mil e uma químicas
que eu sonharia em mil e uma noites e nunca chegaria.
Minha overdose é de tristeza. Tristeza profunda. Deveria ser atestado como caso grave,
em qualquer caso. Vi aos redores ao menos cinqüenta rostos felizes, e o seu estava radiante. Radiante, e só eu não radiava nada. Oversadtrip, ou puta tristeza sem fim mesmo essa que me bate e é o caralho.
Tristeza de quem pára para pensar
na tristeza.
E só.

domingo, 31 de julho de 2011

2.1

A solidão machuca porque é calada, esguia, ressentida. Solidão só
silencia o sol, apaga as gotas da chuva, desloca nuvens, mas o dia passa, o dia vai
aos trancos e desencantos
desfazendo
nós em cima
de nós

Solidão só é um soco no estômago
falta ar,
terra é pouca,
penso como um homem do século XXI,
sinto feito uma dama do XVIII,
que diabos fizeram com o tempo
em mim?

Andam meus pensamentos por caminhos
que meu coração nunca pisará