domingo, 12 de junho de 2011

Serenata de morte ao amor

 Hoje eu acordei decidida a matar o amor. Não é lá uma atitude muito honrosa, mas aposto meus culhões que todo indivíduo em sã consciência, um dia sequer, quis matar o amor.
Dar um tiro certeiro no meio do peito do amor, afogá-lo num riacho, ou à corte de faca para vê-lo sangrar. São boas as possibilidades, mas hoje eu acordei decidida a matar o amor bem baixinho, em silêncio pra ninguém ouvir.
O amor é uma grande invenção. Um dia um baita sujeito perdido entre os séculos percebeu que sentia um troço estranho. Conversa com um, troca figurinhas filosóficas com outro, carinho daqui, céu e estrela dali e bum: é o amor! Amai-vos uns aos outros como eu vos amei, e dali a pouco todos estavam amando. Eu te amo daqui, eu te amo dali, oi, bom dia, eu te amo, oi boa tarde eu também te amo. É tanto amor que mal cabe num mundo só. Daí surgiram os amantes dos astros, do cosmos...
O meu plano de morte ao amor é bastante simples: primeiro, como uma boa assassina, vou investigar os costumes desse amor: vou me jogar nos romances para conhecer suas teorias, segui-lo nos bares, praças e esquinas. Vou mandar carta, bilhete, vou abrir um vinho, brindar e fazer poesia. Vou deitar-me com ele na cama, tirar-lhe o chão e fazer folia dia sim dia não. Vou descobrir seus detalhes nos olhos, suas pequenas mentiras na expressão.
Vou descobrir a verdade que me conta, e que conta a ela também, e àquela outra ali que por ventura quiser se aventurar. Ah, esse amor. Vai querer escapar da morte mandando flores, jurando ser eterno; num ato de desespero vai ajoelhar com olhos ingênuos me propondo casamento."Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!", dirá, mas não darei ouvidos. "Eu quero que o seu amor, meu amor, exploda!"
Mas antes de me calar e acabar com todo esse amor, vamos nos deitar ao chão. E ele dirá que sente muito, e eu direi que sinto muito, que o amor é lindo, mas machuca, e ele dirá que o amor é assim mesmo, só é bom se doer como diz o samba, e eu direi que não, amor nenhum tem que doer, e ele então dirá que o amor é tolo, principalmente por amar.
E então, num sussurro quase calado, mato o silêncio, fazendo juras e serenatas ao amor. 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O bom sujeito

Cabra besta eu mato é logo assim
 Atiro primeiro a interjeição
em cima do sujeito
"Ora, meu rapaz!".
No peito
jogo-lhe o verbo
com faca
lhe enfio adjetivação
                                 Não deixo fuga
                                                    nem perto do refrão
Para as dores do sujeito
tenho a rima que lhe tira
os sapatos do chão

Ao final
com sujeito estraçalhado
e amordaçado
ainda resta a exclamação
É, ou não é nada disso não?


Pílula de cordel 

sábado, 14 de maio de 2011

nota de uma canção

ah, quando um coração
deixa a liberdade
ali morar
deve ser o amor
que brotou uma flor
só

ah, quando uma paixão
deixa um coração
assim ficar
deve ser a flor
que desabrochou
e só

de par
e em dois
eles vão rodar
como uma roda gigante
no ar
fazendo sombra
na beira
do mar

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Sou um tipo de escritora fajuta
uma pulha de Nelson Rodrigues
finjo que a vida é poesia
nos intervalos vagos
entre noite-dia

terça-feira, 12 de abril de 2011

Fujo da morte como o diabo foge da cruz e fujo da vida também que é pra não correr o risco de, deus me livre, perder o pouco que me resta. De deus eu já me livrei, mas essa bendita eternidade me inferniza.

- Mata o caboclo não, sinhô, deixa a vida existir! Gritou seu zé que mora ali bem perto.

Fujo de vagarinho, quase caindo, quase saltando. Pairo entre lá e cá assistindo o dia cair e a noite entrar feito passarinho que esqueceu de voar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Tenho matado de tempos em tempos esse amor que se regenera habilidosamente às escuras sem ruído nem um pio. É que matar dói, disse ao doutor, assim baixinho. Em silêncio vai moendo, moendo miserável o nó que dá. O dia vira duas noites revira o outrora nas entranhas do agora. Moendo, moendo homicídio culposo do amor.